Operação Gutenberg: Editora Avante teve 4 donos em 5 anos

Última dona de editora alvo do Gaeco era funcionária de pet shop
Funcionária de pet shop em foto feita pelo Gaeco durante o tempo que foi investigada (Foto: Procedimento Investigatório Criminal/Reprodução)

A Editora Avante, investigada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) na Operação Gutenberg por suspeitas em contratos milionários de livros com prefeituras de Mato Grosso do Sul, já passou por pelo menos quatro responsáveis formais em menos de cinco anos. A primeira proprietária mantinha um negócio de revenda de roupas usadas e uma das sucessoras trabalhava em um pet shop e, segundo os investigadores, não demonstrava ligação com a rotina da editora.

A Editora Avante, investigada pelo Gaeco na Operação Gutenberg por contratos milionários com prefeituras de Mato Grosso do Sul, teve ao menos quatro responsáveis formais em menos de cinco anos. Entre os nomes registrados estão uma revendedora de roupas usadas e uma funcionária de pet shop, sem vínculo aparente com o setor editorial. O atual sócio-administrador é dono de locadora de veículos em Campo Grande. A investigação apura corrupção, peculato e organização criminosa.

A troca mais recente não aparece no documento da investigação. Consulta feita pela reportagem nesta sexta-feira (17) ao QSA (Quadro de Sócios e Administradores) da Receita Federal mostra que o atual sócio-administrador é também dono de locadora de veículos em Campo Grande.

O homem aparece sozinho no cadastro da empresa, que atualmente tem capital social de R$ 400 mil. A consulta pública mostra apenas a composição vigente e não informa quando ele entrou na sociedade nem em que data a proprietária anterior deixou o negócio.

A sequência conhecida começa com Rhayane Souza Fanaia, passa por Joatan Gomes Peixoto, a funcionária do pet shop que mora no Jardim Noroeste e chega agora ao outro empresário. As alterações frequentes chamaram a atenção do Gaeco porque, conforme a linha de investigação, os nomes registrados como donos nem sempre seriam aqueles que realmente tomavam as decisões.

De brechó a contratos milionários – A empresa foi aberta em 18 de novembro de 2021 em nome de Rhayane, inicialmente com o nome Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais. Na época, o capital social era de R$ 40 mil.

Antes de entrar no mercado editorial, Rhayane exercia atividade de revenda de roupas usadas por meio de uma empresa cujo nome fantasia era simplesmente “Brechó”. Os investigadores também apontaram que ela não apresentava experiência conhecida no setor de livros didáticos.

Apesar disso, a Avante conseguiu contratos de valores elevados pouco tempo depois da abertura. Um deles foi firmado com a Prefeitura de Miranda, por R$ 1.044.355, para o fornecimento de livros paradidáticos sem licitação, por inexigibilidade. A diferença entre o tamanho da contratação, o baixo capital social e a falta de experiência aparente da proprietária ajudou a provocar a abertura da apuração em 2023.

O Gaeco avançou sobre os dados bancários, fiscais e telemáticos da empresa e dos investigados. No período analisado, a editora recebeu R$ 5,2 milhões. Segundo os promotores, as mensagens encontradas indicavam que Rhayane não tinha autonomia financeira ou administrativa e recebia orientações sobre como distribuir valores que entravam na conta da empresa.

A entrada da jovem no mercado editorial também está ligada, na investigação, a seu relacionamento com Giovanni Paroschi Jafar, filho de Mirched Jafar Júnior e Rossana Paroschi Jafar, que foram sócios administradores da Gráfica e Editora Alvorada, empresa já investigada anteriormente por contratos públicos de livros. O pai morreu em abril de 2021 e meses depois, Rhayane, então namorada de Giovanni, abriu a Editora Avante, que vendia livros paradidáticos produzidos pela Alvorada, segundo o Gaeco.

A investigação usa essa cronologia como um dos elementos para sustentar a suspeita de continuidade do modelo de negócios anteriormente associado à Alvorada.

Última dona de editora alvo do Gaeco era funcionária de pet shop
Giovanni Jafar e Rhayane Souza Fanaia durantam jantar divulgado em vídeo por ela nas redes sociais (Foto: Instagram/Reprodução)

Segundo nome no radar – Em janeiro de 2025, os promotores identificaram uma nova alteração. A empresa deixou de usar no nome empresarial a referência a Souza & Fanaia e passou a se chamar oficialmente Editora Avante Comércio de Livros e Serviços Editoriais.

Na mesma consulta, Joatan Gomes Peixoto aparecia como novo sócio-administrador. Diante da mudança, o Gaeco determinou um levantamento sobre ele e suas atividades. O documento não informa, naquele ponto, por quanto tempo Joatan permaneceu formalmente à frente do negócio.

Meses depois, outra troca foi registrada. A funcionária de um pet shop entrou na sociedade em 22 de outubro de 2025 e foi investigada, mas não virou alvo da Operação Gutenberg. Em fevereiro de 2026, ela ainda aparecia como sócia-administradora, enquanto o capital social da editora já havia subido para R$ 300 mil.

A presença do novo nome no comando formal levou o SOI (Setor de Operações e Inteligência) do Gaeco a realizar diligências para descobrir qual era a atuação dela. O relatório, concluído em 16 de março deste ano, mostra que a mulher trabalha no pet shop que pertence ao companheiro dela.

Ao final, o relatório afirma que não foi identificado “qualquer vínculo” dela com a Editora Avante durante o período observado, apesar da mulher constar como sócia-administradora e representar a empresa em contratos assinados com municípios de Mato Grosso do Sul.

Mais uma mudança – A consulta feita pela reportagem mostra que a funcionária do pet shop já não aparece no quadro atual. Agora, a empresa está formalmente em nome de um empresário que não carrega o sobrenome Jafar, com capital social elevado novamente, desta vez para R$ 400 mil.

A mudança ocorreu depois do levantamento feito pelo Gaeco, mas a certidão pública não permite estabelecer a data exata.

A investigação apura suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato e outros crimes relacionados à contratação de livros por prefeituras. Não há sentença definitiva sobre os fatos descritos no procedimento.

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