Férias escolares: como lidar com a sobrecarga dos pais

Ausência da rotina escolar concentra tarefas em mães, pais e responsáveis e acende alerta para a saúde mental

As férias nem sempre são descanso para quem cuida
Segundo a psicóloga Maísa Colombo Lima, o recesso escolar costuma aumentar uma sobrecarga que já existe.

As férias escolares costumam ser sinônimo de descanso para as crianças. Mas, para muitos pais, mães e responsáveis, a realidade é outra. Sem escola, sem a rotina das aulas e, muitas vezes, sem ninguém para ajudar, o que muda é a quantidade de tarefas. O dia fica mais corrido e o tempo para descansar praticamente desaparece.

Esse cenário faz sentido quando se olha para a realidade das famílias brasileiras. Dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as mulheres já são responsáveis por 49,1% dos lares do país, o equivalente a cerca de 35,6 milhões de domicílios. Em 2010, esse percentual era de 38,7%.

O levantamento também aponta o aumento de pessoas que vivem sozinhas e a permanência de famílias em que apenas um adulto cuida dos filhos. Na prática, isso ajuda a explicar por que as férias podem pesar ainda mais para quem já concentra boa parte dos cuidados durante o restante do ano.

Quando as férias cansam mais

Segundo a psicóloga Maísa Colombo Lima, o recesso escolar costuma aumentar uma sobrecarga que já existe. “A rotina muda e o cuidador passa a concentrar ainda mais tarefas. Sem escola, atividades regulares ou alguém para dividir os cuidados, o período que deveria ser de descanso pode se transformar em sobrecarga física e emocional.”

Ela explica que a solidão nem sempre significa estar sozinho. Muitas vezes, o adulto passa o dia inteiro acompanhado da criança, mas sente que não tem com quem dividir decisões, conversar ou simplesmente dizer que está cansado.

A expectativa de descansar também pode acabar gerando frustração. “A expectativa pode ser: ‘Nas férias eu finalmente vou descansar’. Quando isso não acontece, podem surgir irritação, tristeza, ansiedade e sensação de injustiça.”

Quando o cansaço vira culpa

Irritação frequente, choro, dificuldade para dormir, cansaço constante, vontade de se isolar e pensamentos como “não vou dar conta” ou “não aguento mais” podem ser sinais de que o limite emocional foi ultrapassado.

Além do desgaste, muitos pais e mães ainda carregam a culpa por não conseguirem viver as férias da forma que imaginavam.

Para Maísa, esse sentimento precisa ser encarado de outra forma. “Sentir cansaço não significa falta de amor. É importante substituir a acusação por uma compreensão mais realista: ‘Estou cansada porque estou sobrecarregada e preciso de cuidado’.”

Quando o adulto chega ao limite, a relação com a criança também pode mudar. A paciência diminui, as respostas ficam mais ríspidas e o afastamento emocional aparece como uma tentativa do próprio corpo de se proteger. Isso não significa que a pessoa seja uma mãe, um pai ou um responsável ruim. Significa apenas que ninguém consegue cuidar o tempo todo sem também receber cuidado.

Outro peso é a ideia de que as férias precisam ser perfeitas. Passeios, brincadeiras e atividades o tempo inteiro parecem ser uma obrigação, mas nem sempre combinam com a realidade de quem precisa trabalhar, cuidar da casa e ainda dar conta dos filhos.

O que pode ajudar

A psicóloga recomenda diminuir a cobrança e aceitar que nem todo dia precisa ser cheio de atividades. Organizar uma rotina possível, alternar momentos de brincadeira com períodos mais tranquilos, dividir pequenas tarefas e reservar alguns minutos para si já ajudam a aliviar a sobrecarga.

Quando sentir necessidade de uma pausa, ela orienta que o adulto converse com a criança de forma simples. “Eu gosto de estar com você, mas agora preciso descansar alguns minutos. Depois podemos fazer algo juntos.”

Segundo Maísa, familiares, amigos e pessoas próximas também podem fazer diferença. Uma ligação, algumas horas de companhia ou um convite para uma atividade já ajudam a diminuir a sensação de isolamento.

Se o sofrimento começar a afetar o sono, o trabalho, os relacionamentos ou a capacidade de cuidar, o ideal é procurar ajuda profissional. Para a psicóloga, reconhecer o próprio limite não é sinal de fraqueza.

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