Psicóloga cega denuncia capacitismo em hospital de MS

A psicóloga foi barrada na recepção ao comunicar que ia acompanhar a bisavó, que está internada

Psicóloga cega de 27 anos denunciou ter sofrido capacitismo no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, ao tentar acompanhar a bisavó internada. A funcionária da recepção questionou sua capacidade com ironia. Monique registrou queixa na Ouvidoria do SUS e só foi autorizada a subir após o registro. O caso fere a Lei Brasileira de Inclusão e o Estatuto do Idoso. A Secretaria Estadual de Saúde não respondeu até o fechamento da reportagem.

Cega, a psicóloga Monique Lopes Marques, de 27 anos, denunciou ter sofrido capacitismo (preconceito e discriminação contra pessoas com deficiência), no HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande.

No dia 1º de julho, ela chegou à recepção e informou que havia recebido autorização para ser acompanhante da bisavó. Nisto, a funcionária demonstrou surpresa e ironia: “Tem que ver se você pode ficar de acompanhante, né amiga?”.

Monique explicou que já tinha conversado no dia anterior com a enfermagem. Mesmo assim, a recepcionista ligou para a enfermeira-chefe e prosseguiu com as declarações: “Mas você tem certeza? Ela é deficiente visual, 100%”. Após receber a informação da enfermeira, a funcionária teria dito: “Bom, você que sabe, né”. A bisneta não pôde subir para acompanhar a paciente.

“Disse que havia sido muito grossa por ter gritado comigo e pelo sarcasmo do ‘amiga’. Eu disse que faria uma denúncia e ela me respondeu: Amém”.

No registro de reclamação na Ouvidoria do SUS (Sistema Único de Saúde), ela relata que durante todo o atendimento sentiu-se tratada como incapaz em razão da forma como foi abordada pela servidora, “afirmando que as falas e a postura adotadas foram discriminatórias e lhe causaram profundo abalo emocional”. Ela fez o registro chorando e consternada, pois não esperava passar por essa situação dentro do hospital.

Somente após registrar a reclamação, Monique foi autorizada a subir, mas com o alerta de que era somente naquele dia. A bisavó estava acamada, com graves problemas cardíacos e renais, e vinha enfrentando rotina de muita solidão.

“Sabendo o quanto o isolamento agrava o quadro clínico de um idoso, perguntei previamente e com educação para a enfermeira-chefe do plantão daquele dia se eu poderia ficar de acompanhante apenas para fazer companhia. Eu sabia que eu não poderia fazer 100% do que as enfermeiras fazem, mas que eu gostaria muito de acompanhá-la”.

Cega, Monique é barrada no HR: “Tem que ver se pode ser acompanhante, né amiga?”
Monique (de máscara) só conseguiu ser acompanhante da bisavó após reclamação. (Foto: Arquivo pessoal)

Diante do preconceito, ela conta que tem uma rotina independente. “Eu sou formada em Psicologia,  mãe, casada, cuido de um filho de 5 anos, de uma casa e de uma família, e minhas capacidades não deveriam ser questionadas daquela forma”.

A saúde da paciente também apresentou melhoras. “Venho ficando como acompanhante todos os dias, conversamos, rimos, ajudo a passar pomada e hidratante na sua pele e em seus edemas, auxilio ela a se sentar para comer, ouço todas as suas histórias do passado, demonstro interesse, pergunto, converso com os médicos sobre o seu estado”, relata Monique.

A Lei Brasileira de Inclusão proíbe qualquer restrição de direitos em razão da deficiência e o Estatuto do Idoso  garante o direito a acompanhante.

A reportagem entrou em contato com a SES (Secretaria Estadual de Saúde), responsável pelo Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, e aguarda retorno.

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