A dúvida é sempre um “não” – Artigos

Talvez esta frase pareça exagerada à primeira vista, afinal, duvidar faz parte da condição humana. Questionar é saudável, refletir evita precipitações e nos impede de tomar decisões movidas apenas pelo impulso. Mas existe uma diferença importante entre a dúvida que nasce da prudência e aquela que se instala porque, no fundo, a resposta já existe e apenas resistimos em aceitá-la.

Quando temos certeza de alguma coisa, o mundo pode até apresentar obstáculos, opiniões contrárias e circunstâncias difíceis, mas a convicção permanece. Ela não depende de explicações constantes nem precisa ser reafirmada a todo momento. É uma espécie de tranquilidade silenciosa. Não porque elimina o medo, mas porque o medo deixa de determinar o caminho.

A dúvida, por outro lado, costuma exigir argumentos intermináveis. Ela nos faz revisitar a mesma questão inúmeras vezes, buscar novas opiniões, imaginar cenários diferentes, como se em algum lugar existisse uma resposta mais confortável do que aquela que já conhecemos. Muitas vezes, não estamos procurando a verdade. Estamos procurando uma maneira de fazer com que ela doa menos. Isso acontece com frequência nos relacionamentos.

Quantas pessoas permanecem perguntando a si mesmas se ainda amam, se vale a pena insistir, se o outro vai mudar, se ainda existe futuro. Não porque estejam vivendo uma fase difícil, mas porque a própria insistência em procurar respostas já revela que a certeza deixou de existir. Amar nunca significou ausência de conflitos, mas, quando o sentimento permanece vivo, a decisão de continuar não precisa ser renegociada todos os dias.

O mesmo acontece com os sonhos. Há projetos que atravessam períodos de insegurança, fracassos e medo, mas continuam fazendo sentido. O caminho pode ser árduo, porém a direção permanece clara. Já aquilo que não nos pertence de verdade exige convencimento constante. É como se precisássemos construir razões para permanecer onde o coração já não habita.

Talvez uma das maiores dificuldades da vida seja aceitar que nem toda dúvida merece ser resolvida. Algumas existem apenas porque ainda não tivemos coragem de admitir uma escolha. Permanecemos onde somos infelizes por medo do vazio, do julgamento ou da perda. Confundimos apego com amor, hábito com felicidade e resistência com esperança. Enquanto isso, seguimos adiando decisões que, em silêncio, já foram tomadas dentro de nós.

 Existe uma tendência humana de acreditar que pensar mais sempre produz respostas melhores. Nem sempre. Chega um momento em que refletir deixa de ser um exercício de sabedoria e passa a ser apenas uma forma sofisticada de adiar a coragem. A mente continua criando possibilidades, mas o coração já sabe qual delas é verdadeira.

A vida dificilmente oferece garantias. Nenhuma escolha vem acompanhada da promessa de que tudo dará certo. Ainda assim, seguimos decidindo. E as decisões mais importantes quase nunca nascem da ausência de medo. Elas nascem da presença de uma convicção que consegue ser maior do que ele.

A certeza não é arrogante. Ela não se impõe, não faz alarde nem precisa convencer ninguém. Apenas nos devolve uma paz que a dúvida jamais consegue oferecer. É por isso que algumas decisões, depois de finalmente tomadas, parecem estranhamente leves. Não porque tenham sido fáceis, mas porque deixam de consumir a energia gasta tentando negociar com aquilo que já sabíamos.

Talvez amadurecer seja justamente aprender a reconhecer esse momento. O instante em que percebemos que continuar perguntando não nos aproxima da resposta, apenas nos afasta da coragem necessária para vivê-la. Nem toda dúvida é um convite para permanecer. Às vezes, ela é apenas o último sinal de que o coração já escolheu, enquanto a razão ainda tenta encontrar uma justificativa para acompanhá-lo.

Quando a certeza chega, ela não elimina todas as incertezas da vida, mas encerra aquela discussão íntima que parecia não ter fim. E há uma serenidade rara nisso. A serenidade de quem finalmente deixa de procurar respostas porque compreendeu que elas estavam ali desde o começo, esperando apenas que fossem aceitas.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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