Caro conviva,
Há um instante, no fim de cada dia bem-sucedido, em que a alma faz as contas, e elas nunca fecham.
Passei a vida acumulando. Diplomas emoldurados, títulos que soam bem quando alguém pergunta o que você faz, uma reserva financeira planejada com a paciência de quem acredita que o futuro se compra em prestações. Por muito tempo, funcionou. Cada conquista era uma resposta provisória à pergunta que eu ainda não tinha coragem de fazer.
Foi Sêneca quem escreveu que não é pouco o tempo que temos, mas é muito o que desperdiçamos, e eu desperdicei anos inteiros confundindo movimento com direção. Subia. Ninguém perguntava para onde.
Seja no cargo que você ocupa, na casa que sustenta ou na aprovação que ainda persegue, a lógica é a mesma: acumulamos para provar alguma coisa a alguém, e o mais cruel é que muitas vezes esse alguém nem está mais por perto para ver.
No meu caso, foi uma responsabilidade nova, com gente contando comigo, decisões que pesam e números que precisam fechar no fim do mês. Numa dessas noites em que finalmente tudo bateu, percebi algo desconcertante: a sensação de vitória durou exatamente sete minutos. Depois, o silêncio de sempre.
Não escrevo isso como quem reclama do que conquistou. Escrevo como quem descobriu, tarde demais para ser confortável e cedo o suficiente para mudar algo, que patrimônio é uma palavra traiçoeira. Ele promete segurança e entrega apenas capital. Promete sentido e entrega apenas números. E os números, por mais bonitos que sejam numa planilha, jamais responderam à pergunta que realmente importa: para quê?
Machado de Assis conhecia bem esse tipo de personagem, o homem que passa a existência inteira comparando-se com os que têm menos, para nunca precisar comparar-se com quem poderia ter sido.
É confortável correr uma prova cujo único adversário é o vizinho. É aterrorizante correr uma prova cujo adversário é a própria consciência. Porque é isso que ninguém me disse quando eu ainda tinha tempo de escutar: não existe aposentadoria da consciência. Ela não tem carência, não é resgatável em vinte anos, não aceita acordo. Ela cobra todos os dias, e cobra exatamente a pergunta que os cargos, os títulos e as reservas foram desenhados para adiar.
Pratico uma disciplina marcial há mais de dez anos, e há um princípio nela que me persegue com mais honestidade do que qualquer resultado no fim do mês: o gesto vazio de intenção não é técnica, é coreografia. É o movimento que parece disciplina, mas é só encenação, bonito de assistir, mas que não corta nada.
Começo a suspeitar que boa parte da nossa produtividade contemporânea é exatamente isso: coreografia bem ensaiada de uma vida que evita, com extremo profissionalismo, cortar o que precisa ser cortado.
A crítica não é ao trabalho, nem à ambição, nem ao dinheiro, que, tratado com responsabilidade, é forma legítima de cuidado com os que amamos. A crítica é à substituição silenciosa: quando o acúmulo deixa de ser instrumento e passa a ser identidade. Quando já não sabemos mais quem seríamos sem o cargo, sem o número na conta, sem o título antes do nome.
Uma vez por mês, participo de um encontro onde falamos do que a agenda do dia a dia não tem espaço para agendar: fé, propósito, os silêncios que carregamos para dentro de casa. E é curioso, nesses encontros, ninguém jamais perguntou o que eu faço da vida. Perguntaram, isso sim, quem eu estava me tornando. A pergunta certa quase sempre chega vestida de simplicidade.
Talvez a maturidade não seja o momento em que finalmente acumulamos o suficiente. Talvez seja o momento em que paramos de usar o acúmulo como resposta a uma pergunta que exige outra coisa, presença, coragem, verdade.
Você pode se aposentar do emprego. Pode se aposentar da rotina, do estresse, até de certas versões cansadas de si mesmo. Mas a consciência não assina esse tipo de contrato.
Ela continua ali, depois do expediente, depois da última conta paga, depois do dia que finalmente deu certo, perguntando baixinho, sem pressa, com toda a paciência de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, você vai ter que responder.
Para quê?
Pense nisso.
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.
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