A compulsão tem sido um importante sintoma na crescente de diagnósticos que trazem mais pessoas a clínica psicanalítica, as mais comuns, ou que mais aparecem são: compulsão alimentar, compulsão por compras, compulsão pelo uso das redes sociais, entre tantas outras, a compulsão é uma forma de nomear comportamentos que ultrapassam os limites considerados socialmente aceitáveis.
Esses diagnósticos podem oferecer uma importante via de compreensão e cuidado para sujeitos em sofrimento, e deve ser levado sempre em consideração, porém sempre com muito cuidado e acompanhamento profissional, o que na maioria das vezes não ocorre.
A própria tentativa de classificar e controlar o excesso tem produzido, em muitos indivíduos, novas formas de angústia, culpa e esgotamento psíquico. Nesse cenário, cresce a busca por atendimento psicológico, não apenas como tentativa de eliminar sintomas, mas como uma necessidade de compreender aquilo que se manifesta como sofrimento subjetivo.
A compulsão pode ser compreendida para além de um comportamento repetitivo ou descontrolado, ao pensar de forma psicanalítica sobre o funcionamento do aparelho psíquico, entende-se que em determinados atos repetidos possuem uma relação íntima com conflitos inconscientes.
Em Além do princípio do prazer (1920), ao formular a ideia da compulsão à repetição, Freud aponta que o sujeito pode retornar continuamente a determinadas experiências, mesmo quando estas provocam sofrimento.
A repetição, portanto, não é simplesmente uma falha de autocontrole, mas uma tentativa do psiquismo de elaborar algo que permanece sem representação ou elaboração simbólica. Na cultura em que vivemos hoje, é possível notar que frequentemente transformamos a experiência subjetiva em uma questão de desempenho e controle individual.
O sujeito passa a interpretar seus excessos como fracassos pessoais, como por exemplo: “não consigo controlar minha alimentação”, “não consigo parar de comer doce”, “não consigo parar de trabalhar”, “não consigo me desconectar”.
A consequência desse movimento pode ser o aumento da culpa e da cobrança interna, fortalecendo justamente os ciclos compulsivos que geram sofrimento. O sujeito se vê capturado por uma exigência constante de autocontrole, enquanto simultaneamente é incentivado por uma sociedade marcada pelo consumo, pela produtividade e pela busca incessante de satisfação.
A discussão se amplia, ao compreender que o sintoma não é como algo simplesmente a ser eliminado, mas como uma formação que possui uma função na economia psíquica do sujeito. Para Lacan, por exemplo, o sujeito é atravessado pela linguagem e pelo desejo, sendo impossível reduzi-lo a um conjunto de comportamentos observáveis.
A compulsão pode ser entendida como uma tentativa de responder a uma falta estrutural, uma forma de lidar com a angústia diante do vazio e da impossibilidade de uma satisfação completa. Nesse sentido, a sociedade atual, ao mesmo tempo em que oferece inúmeros objetos e possibilidades de consumo, produz sujeitos cada vez mais confrontados com a sensação de insuficiência.
O discurso social promete uma satisfação plena através do excesso, mais produtividade, mais reconhecimento, mais consumo, mais experiências, porém o que está em jogo de fato é outra coisa, pois o resultado frequentemente é o esgotamento.
Lacan descreve o discurso capitalista como um modo de funcionamento que estimula o sujeito a buscar incessantemente novos objetos de satisfação, sem que isso produza uma resolução do desejo. O aumento da procura por atendimento psicológico revela, portanto, não apenas uma maior conscientização sobre a importância da saúde mental, mas também uma marca de uma época atravessada pelo excesso.
Muitas pessoas chegam à clínica não somente buscando eliminar um comportamento compulsivo, mas tentando compreender por que aquilo que fazem repetidamente não produz a satisfação esperada.
O sofrimento aparece como um chamado para uma investigação sobre si mesmo e a psicanálise propõe justamente escutar o sujeito para compreender o sentido daquele sintoma em sua trajetória, em seus vínculos e em sua relação com o desejo.
(*) Lia Rodrigues Alcaraz é psicóloga formada pela UCDB (2011), especialista em orientação analítica (2015) e neuropsicóloga em formação (2024). Trabalha como psicóloga clínica na Cassems e em consultório.