A cada quatro anos, o mundo parece desacelerar para assistir à Copa do Mundo. Ruas ganham bandeiras, famílias se reúnem diante da televisão, desconhecidos se abraçam depois de um gol. Durante noventa minutos, o futebol parece capaz de unir pessoas de diferentes países, culturas e histórias em torno de uma mesma paixão.
Mas existe outra partida acontecendo ao mesmo tempo.
Ela não é televisionada.
Não aparece nas estatísticas dos jogos.
E quase nunca ocupa as manchetes.
Enquanto milhões de pessoas acompanham a bola em campo, outra estatística cresce silenciosamente: a violência contra as mulheres.
Os dados mostram que essa relação está longe de ser uma coincidência. No Brasil, um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou que, em dias de jogos de futebol, os registros de Boletins de Ocorrência por ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, enquanto os casos de lesão corporal crescem 20,8%. O fenômeno também foi observado em outros países. Na Inglaterra, pesquisas registraram aumento de 26% dos episódios de violência doméstica em dias de jogos da seleção nacional — porcentual que chega a 38% quando a equipe é derrotada. Nos Estados Unidos, estudos sobre partidas de futebol americano identificaram crescimento das ocorrências de violência doméstica em dias de jogos, especialmente após derrotas do time da casa. Já durante o Super Bowl, uma das maiores celebrações esportivas daquele país, pesquisas apontaram um aumento superior a 40% nos casos registrados em comparação com domingos comuns.
Esses números costumam provocar uma pergunta imediata: afinal, o futebol provoca violência?
A resposta é não.
O esporte não cria agressores.
A violência contra as mulheres não nasce quando o juiz apita o início da partida. Ela é construída muito antes, em uma cultura que ainda naturaliza relações desiguais de poder entre homens e mulheres. O que grandes eventos esportivos fazem é criar um contexto que pode potencializar comportamentos já existentes. Emoções intensas, consumo excessivo de álcool, frustrações diante da derrota e modelos de masculinidade baseados na competição, no controle e na demonstração de força funcionam como catalisadores de uma violência que já estava presente.
É justamente por isso que os episódios de violência registrados nesses períodos não podem ser tratados como acontecimentos isolados.
Essa discussão ganha ainda mais visibilidade quando denúncias de violência sexual alcançam o próprio universo do futebol profissional. Nos últimos anos, atletas de diferentes seleções nacionais passaram a responder a investigações ou processos relacionados a crimes sexuais. Independentemente do desfecho jurídico de cada caso — que deve sempre ser respeitado e acompanhado conforme o devido processo legal —, a recorrência dessas denúncias revela que fama, sucesso e reconhecimento público não impedem que a violência contra as mulheres atravesse também um dos maiores espetáculos esportivos do planeta.
Os nomes mudam.
Os países também.
Mas o roteiro parece sempre o mesmo.
Talvez porque o problema nunca tenha sido apenas os indivíduos.
A violência contra as mulheres também é produzida pelas narrativas que construímos sobre masculinidade, poder, conquista e controle — narrativas que atravessam gerações e continuam sendo reproduzidas, muitas vezes, sem que percebamos.
Desde muito cedo, meninos aprendem que precisam ser fortes, competitivos, dominantes. Aprendem que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, enquanto controlar, vencer e impor-se são comportamentos frequentemente valorizados. Não se trata de afirmar que todo homem educado sob essas referências será violento. Evidentemente não. Mas é impossível ignorar que essas narrativas ajudam a construir um ambiente onde agressividade, posse e controle encontram espaço para serem naturalizados.
A violência de gênero não nasce no estádio.
Ela começa nas pequenas permissões cotidianas.
Nas piadas que transformam o corpo feminino em objeto.
Na ideia de que ciúme é prova de amor.
Na crença de que homens têm o direito de controlar as escolhas das mulheres.
Na banalização de comportamentos que, pouco a pouco, alimentam relações abusivas.
Quando olhamos apenas para os casos extremos, perdemos de vista tudo aquilo que os torna possíveis.
Talvez seja justamente durante uma Copa do Mundo que devêssemos ampliar nosso olhar. Celebrar o esporte é importante. O futebol faz parte da identidade cultural de muitos povos e mobiliza emoções legítimas. Mas não podemos permitir que a festa esconda aquilo que continua acontecendo do lado de fora das quatro linhas.
Enquanto acompanhamos estatísticas de gols, classificações e artilheiros, outra estatística continua crescendo silenciosamente. Ela não aparece no placar, não rende troféus nem ocupa os programas esportivos. Ainda assim, diz muito sobre quem somos como sociedade.
Porque o futebol termina quando o árbitro encerra a partida.
A violência contra as mulheres, infelizmente, continua muito depois do último gol.
E talvez o verdadeiro desafio seja compreender que o jogo mais importante não acontece dentro do estádio.
Ele acontece todos os dias, quando decidimos que tipo de masculinidade queremos ensinar, que relações estamos dispostos a construir e quanto tempo ainda aceitaremos que a violência permaneça escondida sob o barulho da torcida.
(*) Kátia Bizan é pós-doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da USP
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