Quando estrelas dos Super Eagles como Moses Simon falam, o país ouve.
É por isso que a sua recente afirmação de que lhe foi negado um contrato profissional pelo Enugu Rangers porque não é Igbo gerou muito mais do que um debate sobre futebol. Reabriu conversas sobre etnia, mérito e responsabilidade numa altura em que a Nigéria já se debate com tensões étnicas agravadas.


Simon, o atual capitão assistente dos Super Eagles, fez a alegação durante uma entrevista ao UrbanDwellSport, relembrando seus primeiros dias como um jovem jogador em busca de avanço.
“Fui para o Rangers e treinei com eles durante três meses. Fui dispensado porque não era igbo, não por causa do meu desempenho.
“Passei três meses no time, enquanto outro jogador treinou apenas uma vez e conseguiu um contrato profissional porque era igbo. Nunca contei essas histórias a ninguém. Foi a primeira vez. Mas é uma vergonha.”
Os comentários rapidamente se espalharam pelas redes sociais, com muitos usuários debatendo se o tribalismo ainda existe no futebol nigeriano.
A Rangers International respondeu rapidamente.
Numa declaração intitulada “Posição do Rangers International Football Club sobre Inclusão Étnica e Oportunidades Sociais”, o CEO do clube, Amobi Ezeaku, rejeitou firmemente a alegação.
O clube afirmou que embora respeite o direito de cada jogador de contar experiências pessoais, o Rangers “nunca manteve, e não mantém, qualquer política de discriminação com base na etnia, tribo, religião ou local de origem”.
O Rangers também defendeu a sua história, dizendo que embora o clube esteja orgulhosamente enraizado em Enugu e no Sudeste, sempre pertenceu à Nigéria como um todo.
Segundo o clube, o recrutamento de jogadores sempre se baseou na habilidade, caráter, disciplina e comprometimento do futebol, e não na identidade étnica. Acrescentou que milhares de jogadores passaram pelo Rangers ao longo dos anos, com alguns ganhando contratos e outros perdendo com base em decisões futebolísticas.
O clube sublinhou ainda que a sua actual administração continua comprometida com o profissionalismo, a meritocracia, a diversidade e a igualdade de oportunidades para todos os jogadores talentosos, independentemente da origem étnica, religiosa ou geográfica.
A verdade sobre o que aconteceu durante o julgamento de Simon, há muitos anos, poderá nunca ser totalmente estabelecida. A sua experiência é pessoal, embora os Rangers insistam veementemente que a etnia nunca fez parte da sua política de recrutamento.
Mas além de decidir quem está certo ou errado, existe uma questão maior.
Simon não é apenas mais um ex-jogador relembrando sua carreira. Ele é uma das maiores estrelas do futebol da Nigéria, uma figura importante no vestiário das Super Águias e atual capitão assistente do time. Suas palavras têm enorme influência dentro e fora do futebol.
Essa influência vem com responsabilidade.
A Nigéria enfrenta actualmente sensibilidades étnicas acrescidas, com debates públicos cada vez mais divididos em linhas tribais. Numa tal atmosfera, as alegações que envolvem a etnia podem rapidamente espalhar-se para além do futebol e alimentar tensões mais amplas.
Isto não significa que Simão deva permanecer em silêncio se realmente acreditar que foi tratado injustamente. Todos têm o direito de contar a sua história. Contudo, as figuras públicas também têm a responsabilidade de reconhecer as possíveis consequências de declarações sensíveis, especialmente quando envolvem questões étnicas.
Se Simon tivesse levantado a questão depois de se aposentar do futebol, a reação ainda poderia ter sido significativa. Mas como líder activo da selecção nacional que se aproxima dos 100 jogos pela Nigéria, os seus comentários têm naturalmente maior peso e influência.
O futebol é há muito tempo um dos poucos lugares onde os nigerianos de todos os grupos étnicos se unem em torno de um objectivo comum. Se existir discriminação, ela deve ser exposta e combatida. Ao mesmo tempo, acusações desta natureza requerem cuidado, contexto e responsabilidade para que incentivem a responsabilização sem aprofundar as divisões existentes.
O debate em torno dos comentários de Simon é, portanto, mais do que Rangers ou a experiência de um jogador. É um lembrete de que, na Nigéria de hoje, as vozes influentes devem equilibrar a verdade pessoal com o impacto mais amplo que as suas palavras podem ter numa nação que ainda vê o futebol como um símbolo de unidade.
