Neno Razuk: condenado a 15 anos por crime organizado e bicho

Ex-deputado já foi condenado em primeira instância e responde a outra ação da Operação Successione

De jogo do bicho a assaltos: veja os crimes atribuídos a Neno Razuk
Neno Razuk em casa no condomínio Damha, durante operação em 2025 que investigou crime organizado (Foto: Arquivo)

O ex-deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk, acumula uma condenação em primeira instância e responde a outro processo decorrente da Operação Successione, investigação iniciada em dezembro de 2023 para apurar a disputa pelo controle do jogo do bicho em Campo Grande. Ao longo de diferentes fases, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) apontou o ex-parlamentar como uma das lideranças de uma organização criminosa armada. Ele segue procurado, com prisão preventiva decretada.

Ex-deputado Neno Razuk foi condenado a 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão por organização criminosa armada, roubo majorado e exploração do jogo do bicho em Campo Grande, resultado da Operação Successione. Ele responde a outro processo da mesma operação e segue foragido com mandado de prisão preventiva. A defesa nega envolvimento e pretende recorrer da sentença.

Na primeira ação penal derivada da operação, Neno foi condenado, em dezembro de 2025, a 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão, inicialmente em regime fechado, além de cinco meses de detenção em regime aberto. Os crimes reconhecidos na sentença foram organização criminosa armada, roubo majorado e exploração do jogo do bicho. A decisão ainda não é definitiva e está sob análise de recurso da defesa.

Já no outro processo decorrente da Successione, que motivou a prisão preventiva decretada neste mês, Neno ainda não foi condenado, porque a ação segue em andamento. É nesse caso que ele volta a responder por acusações relacionadas à atuação da organização criminosa investigada pelo Gaeco.

De jogo do bicho a assaltos: veja os crimes atribuídos a Neno Razuk
Assalto supostamente forjado no bairro Manoel Taveira. (Foto: Reprodução inquérito)

Segundo a sentença da primeira ação, assinada pelo juiz José Henrique Káster Franco, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, Neno integrava uma organização estruturada, com hierarquia, divisão de tarefas e atuação permanente. O grupo teria como objetivo controlar a exploração do jogo do bicho na Capital e afastar concorrentes por meio de ameaças, roubos e uso de armas.

A decisão descreveu o grupo como uma estrutura semelhante a uma máfia, com setores de logística, tecnologia, contabilidade e segurança armada. Também foram apontados vínculos com policiais militares da reserva e o uso de cargos públicos e de informações restritas da segurança pública em benefício da organização.

Três roubos em um único dia

Neno também foi condenado por participação em três roubos majorados cometidos em 16 de outubro de 2023. Segundo a acusação aceita pela Justiça, as ações foram praticadas com armas de fogo contra pessoas que transportavam valores ligados a grupos rivais na exploração do jogo do bicho.

A investigação apontou que um automóvel alugado em nome do então deputado foi utilizado pelo grupo nos crimes. O juiz também considerou mensagens e outros elementos reunidos pelo Gaeco para concluir pela participação do ex-parlamentar nos três episódios.

De jogo do bicho a assaltos: veja os crimes atribuídos a Neno Razuk
Polo branco alugado em nome do deputado estadual era utilizado por grupo para cometer roubos de motociclistas que faziam serviço para organização criminosa de São Paulo (Foto: Reprodução relatório do Gaeco)

Exploração do jogo do bicho

A terceira condenação foi pela exploração do jogo do bicho. Segundo a investigação, a organização buscava ocupar o espaço deixado em Campo Grande depois da Operação Omertà, que atingiu o grupo anteriormente dominante, e disputava território com outras organizações interessadas no controle da loteria ilegal.

Para a Justiça, a atividade não se limitava à manutenção de bancas de apostas. A estrutura teria recorrido a roubos, intimidação armada e ameaças para conquistar pontos e afastar concorrentes. Durante as investigações relacionadas ao grupo, centenas de máquinas de apostas foram apreendidas.

Planos de assassinato e ameaças

A sentença também revelou que integrantes da organização discutiam planos de assassinato contra rivais e contra um possível delator, chamado de “X9” nas conversas interceptadas.

Em uma das situações, membros do grupo teriam colocado uma recompensa entre R$ 50 mil e R$ 100 mil pela morte de Henrique Abraão Gonçalves da Silva, conhecido como “Macaulin” ou “Rico”, apontado como integrante de um grupo rival ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital).

A decisão também mencionou uma agenda apreendida na casa de um dos réus com a expressão “Lista de quem vai pular”, seguida por nomes. Segundo depoimento citado pelo juiz, no jargão de organizações criminosas, “pular” significaria executar ou assassinar.

Outras mensagens interceptadas mostraram integrantes falando em “fritar na bala” desafetos e discutindo a necessidade de matar um suposto delator.

Esses elementos foram usados pelo juiz para sustentar que a organização mantinha um braço armado permanente e tinha capacidade para planejar execuções. No entanto, Neno não foi condenado por homicídio ou tentativa de homicídio nessa ação. Os planos de assassinato aparecem no processo como parte da atuação atribuída ao grupo e como prova da estrutura armada da organização.

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Área interna da Casa de Jogos no bairro Monte Castelo. (Foto: Reprodução Inquérito)

Outro processo segue em andamento

Além da condenação já imposta em primeira instância, Neno é réu em outra ação penal decorrente da quarta fase da Operação Successione. Foi nesse processo que o juiz decretou sua prisão preventiva em julho de 2026, sob o argumento de risco à ordem pública e de que a organização criminosa continuaria em atividade.

Nesse processo, Neno ainda não foi condenado, porque a ação segue em andamento. A Successione, de forma mais ampla, investiga crimes de organização criminosa, roubo, corrupção passiva e ativa, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e exploração de jogos de azar.

No entanto, como parte do processo tramita sob sigilo, não é possível afirmar, apenas com as informações públicas disponíveis, que Neno seja pessoalmente acusado de todos esses crimes.

Desde o início das investigações, o ex-deputado nega envolvimento com atividades criminosas. A defesa também já informou que pretende recorrer da condenação de primeira instância.

Perda de cargo

Neno Razuk perdeu o mandato de deputado estadual em maio de 2026 após o TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul) retotalizar os votos das eleições de 2022, em cumprimento a decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que anulou os 10.782 votos recebidos por Raquelle Trutis, do PL, por irregularidades em gastos de campanha.

A retirada desses votos reduziu a votação total da legenda, alterou o quociente eleitoral e provocou a saída de Neno, que havia obtido 17.023 votos, abrindo vaga para João César Mattogrosso, do PSDB, que recebeu 11.650 votos.

A perda do mandato facilitou juridicamente a decretação da prisão preventiva porque Neno Razuk deixou de ter foro privilegiado

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