Vestidos de branco, representantes de diferentes religiões se reuniram na manhã deste sábado (4), na Praça Ary Coelho, região central de Campo Grande, em um ato pela paz, liberdade de fé e respeito religioso. O movimento, chamado “Campo Grande Veste Branco Pela Paz”, reuniu lideranças religiosas e moradores em defesa da convivência entre crenças diferentes.
Representantes de diferentes religiões se reuniram na manhã do sábado (4) na Praça Ary Coelho, em Campo Grande, no ato “Campo Grande Veste Branco Pela Paz”. O movimento ocorreu após o pai de santo Paulo Henrique, 34, denunciar ter sido atacado verbalmente por um pastor em frente ao seu terreiro no Parque do Lageado. O Instituto Yalodê, que oferece orientação jurídica a vítimas de racismo religioso, acompanha cerca de 20 casos semelhantes.
A manifestação ocorreu menos de um mês depois de um caso de intolerância religiosa registrado na Capital. Em junho, o pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, denunciou à polícia ter sido atacado verbalmente por um pastor em frente ao terreiro da família, no Parque do Lageado. Segundo o boletim de ocorrência, o caso foi registrado como prática, indução ou incitação de discriminação ou preconceito de religião.
Na praça, o branco foi escolhido como símbolo de paz. A proposta do ato era lembrar que a liberdade religiosa é garantida pela Constituição Federal e também pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que asseguram o direito à liberdade de consciência, crença e religião.
Mãe Janice de Iemanjá disse que a mobilização foi um pedido de respeito, especialmente às religiões de matriz africana. “Nós estamos aqui todos reunidos na Praça Ary Coelho, pedindo aos católicos, aos evangélicos, àqueles que são intolerantes à nossa religião, que nós somos assim, simples, honestos, pela fé”, afirmou.
Ela também defendeu que a fé não pode ser usada como motivo para agressão ou desrespeito. “Deus é nosso, Deus é de todos, Deus está pela nossa paz. Nós estamos vestidos de branco hoje para ter a paz com todas as nossas religiões”, disse.
Para Mãe Janice, a intolerância precisa deixar de ser tratada como conflito menor. “Eu peço respeito de todos, peço que essa intolerância seja terminada, para que a gente possa ser feliz. Todos unidos numa mesma fé”, declarou.
Professor da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) e integrante do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos), Edmilson Schinelo também participou do ato e destacou a importância da pluralidade religiosa.
“Nosso agradecimento pelo apoio de vocês, em nome da liberdade religiosa, em nome de um Campo Grande que veste branco contra a intolerância”, disse. “Nós vamos construir uma sociedade onde cada expressão de fé seja respeitada.”
O movimento chamou a atenção de quem passava pela região central. O paraguaio Ervin Ariel Lopez, que estava de bicicleta, parou para acompanhar a mobilização e elogiou o encontro. Para ele, a cena na praça representava a força das diferentes religiosidades reunidas no mesmo espaço. “Parabéns a todas as festas, às religiosidades”, disse.
Caso de intolerância – O ato deste sábado também ecoou a denúncia feita por Paulo Henrique no mês passado. Conforme relatado à polícia, o pai de santo afirmou que familiares foram abordados por Sérgio Britto, pastor da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora, que teria feito declarações contra a umbanda.
Segundo Paulo, o pastor teria feito declarações ofensivas contra praticantes de religiões de matriz africana, afirmando que seriam julgados e iriam para o inferno. A vítima contou ainda que Sérgio se ajoelhou próximo à residência e passou a recitar trechos bíblicos, perturbando o sossego da família.
Em vídeo gravado pela vítima, o pastor aparece de terno, segurando uma Bíblia, acompanhado por fiéis na rua da casa de Paulo. Nas imagens, o umbandista afirma que o grupo foi ao local para dizer que ele seria condenado caso não deixasse a umbanda. O pastor responde: “vai mesmo, eu morro e vou para a cadeia, mas eu vou com a palavra verdadeira”.
Paulo disse ao Campo Grande News que ficou abalado com o episódio. “Fiquei muito mexido, chateado com essa situação. Não vamos na casa de ninguém e foram na minha porta fazer isso”, afirmou à época. Ele também relatou que a mãe, que faz tratamento psiquiátrico, teria sido chamada de “demônio”.
À reportagem, Sérgio Britto negou ter ido propositalmente ao terreiro ou ter intenção de ofender a família. Segundo ele, estava evangelizando no bairro, entregando folhetos e convites para cultos. O pastor afirmou que apenas citou uma passagem bíblica após uma mulher dizer que era umbandista.
“Eu disse que ela deveria se arrepender e largar a umbanda, senão ela poderia ser condenada. Mas eu não disse nada contra a pessoa dela, somente falei da palavra de Deus”, declarou na ocasião.
O caso passou a ser acompanhado pelo Instituto Yalodê, entidade que oferece orientação jurídica a vítimas de racismo religioso. O presidente da instituição, Bàbá Augusto, afirmou que Paulo procurou apoio após o episódio. “O Pai Paulo é sacerdote da Umbanda e me procurou para pedir ajuda, após ser mais uma vítima de racismo religioso”, disse.
Segundo Augusto, o instituto acompanha cerca de 20 casos semelhantes, entre denúncias e processos que correm em segredo de justiça. Para ele, ataques contra praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda devem ser tratados como racismo religioso, porque atingem crenças ligadas à cultura e à ancestralidade africana.

