Fraude em contratos de livros usava influência de deputados

Conversas analisadas pelo Gaeco falam em “interferência”, força política e acesso a municípios

Suspeitos de fraude com livros usavam nomes de deputados para abrir portas
As conversas são sempre entre o ex-gestor de regulação da Saúde e advogado (Foto: Reprodução)

Suspeitos investigados por supostas fraudes em contratos para a compra de livros usavam nomes de deputados estaduais como uma espécie de cartão de visita para chegar a prefeituras de Mato Grosso do Sul. Conversas analisadas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) mostram investigados falando em recorrer à influência política de 6 parlamentares, 5 estaduais e 1 federal, para  marcar reuniões e usar a força deles para conseguir acesso a municípios e tentar fechar negócios para a Editora Avante.

Investigados por fraudes em contratos de compra de livros em Mato Grosso do Sul usavam nomes de deputados estaduais para acessar prefeituras e fechar negócios com a Editora Avante, segundo o Gaeco. Conversas analisadas mostram os suspeitos discutindo o uso da influência política de quatro parlamentares. A investigação apura crimes de corrupção, peculato e organização criminosa, após contratos suspeitos com municípios como Miranda, Ivinhema e Ladário.

O material faz parte do Relatório do PIC (Procedimento Investigatório Criminal) que apura, em tese, crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato e outros delitos relacionados a contratos públicos para aquisição de livros.

Em uma das conclusões mais diretas, o próprio Gaeco afirma que dois deputados estariam fazendo “interferência” junto a alguns municípios para auxiliar o ex-gestor de regulação da Secretaria Estadual de Saúde, Ed Carlos e o advogado e representante da editora, Gabriel Taquino, na obtenção de contratos com as cidades.

Em conversa de maio de 2022, ao discutir a possibilidade de acesso a uma prefeitura, Ed Carlos afirma que marcaria uma reunião e que o deputado citado poderia ligar para uma terceira pessoa e “mandar atender”.

Logo depois, resume a estratégia em três palavras: “Vir de cima”. Na mesma sequência, são mencionados diferentes municípios e valores milionários em negócios pretendidos pelos interlocutores.

Em outro diálogo, de julho de 2022, Ed Carlos diz ter marcado reunião com o assessor de um deputado estadual e afirma que ele teria acesso a dez municípios que poderiam ser atendidos com material da Editora Avante.  “Ele tem 10 municípios”, escreveu.

Gabriel então respondeu que precisava receber a relação das cidades. Ed Carlos afirmou que os dois alinhariam tudo na reunião e acrescentou: “São os municípios do deputado”.

A conversa seguiu com uma demonstração clara de que o objetivo era fechar o maior número possível de negócios, sem distinção entre cidades grandes ou pequenas.  “Não dá pra ter parâmetro de tamanho de município”, escreveu Ed Carlos. “Tem q fechar tudo q vier”, completou. E resumiu: “Dinheiro é dinheiro”.

A sequência fica ainda mais explícita quando os interlocutores passam a discutir o uso da influência política. Ed Carlos diz que iria “bater agora em cima dos deputados” e procurar os parlamentares. Gabriel responde: “Tem de usar a força”. Em seguida: “E eles gostam”.

Todas as frases são dos investigados. Não há nenhuma mensagens escritas pelos deputados nem falas que possam ser atribuídas diretamente aos parlamentares.

O padrão se repete em outras conversas. Em 2023, o próprio relatório do Gaeco afirma que Ed Carlos e Gabriel discutiram, em diferentes dias, a busca pelo apoio de deputados estaduais “a fins de efetivar contratação com vários municípios para Editora Avante”.

Em uma das mensagens, Gabriel pede que Ed Carlos marque encontro com um parlamentar:  “para nos ajudar a fazer dinheiro”. Em outro momento, Ed Carlos diz que pediria ajuda a outro deputado.

O relatório também registra conversas sobre reuniões diretamente com parlamentares, encontros com assessores e municípios que os próprios interlocutores classificavam como pertencentes à área de influência de determinados deputados.

A investigação começou após o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) receber informações sobre uma contratação de R$ 1,044 milhão feita pela Prefeitura de Miranda com a Editora Avante para o fornecimento de livros paradidáticos. O Gaeco também identificou contratos da empresa com Ivinhema, que chegaram a R$ 874,1 mil após aditivo, e Ladário, no valor de R$ 459,2 mil.

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